Microplásticos no Ar Aquecem a Atmosfera com Efeito Comparável a 200 Usinas a Carvão, Revela Estudo

Partículas de microplástico suspensas na atmosfera terrestre podem estar contribuindo significativamente para o aquecimento global, atuando como agentes que absorvem calor em vez de refleti-lo. Uma nova pesquisa, publicada na renomada revista Nature Climate Change, aponta que esses fragmentos, especialmente os de cores escuras e vibrantes, possuem uma capacidade notável de reter energia solar, um fenômeno com implicações climáticas ainda em investigação.

Absorção de Calor por Partículas Pigmentadas

O estudo, liderado por cientistas da Universidade Fudan, na China, analisou a interação de diferentes tipos de microplásticos com a luz solar. Os resultados indicam que partículas pretas, vermelhas, amarelas e azuis absorvem a radiação solar de forma muito mais intensa do que suas contrapartes brancas ou transparentes. De acordo com os achados, as partículas pigmentadas apresentaram níveis de absorção térmica quase 75 vezes superiores aos de plásticos sem pigmentação, funcionando efetivamente como aquecedores atmosféricos.

Impacto Climático Estimado

Os autores da pesquisa estimam que a contribuição dos microplásticos suspensos na atmosfera para o aquecimento global seja equivalente a cerca de um sexto do impacto provocado pelo carbono negro, a fuligem gerada pela queima de combustíveis fósseis. Embora o efeito individual seja menor do que o de fontes como veículos, indústrias ou pecuária, os pesquisadores ressaltam que o impacto não é trivial. O efeito anual das emissões globais de microplásticos na atmosfera pode ser comparável à operação de 200 usinas movidas a carvão durante um ano inteiro.

Um fator de preocupação adicional é a natureza cumulativa desse impacto. As partículas de microplástico permanecem no ambiente por décadas antes de se degradarem completamente, o que significa que seu efeito de aquecimento pode se acumular ao longo do tempo. A pesquisa também destaca que os nanoplásticos, fragmentos ainda menores que os microplásticos (com espessura inferior à de um fio de cabelo humano), podem ter um papel ainda não totalmente compreendido nesse cenário.

Desafios e Relevância da Redução da Poluição Plástica

Apesar das descobertas, os cientistas reconhecem que ainda existem grandes incertezas sobre a magnitude exata desse efeito atmosférico. Um dos maiores desafios é medir com precisão a quantidade de microplásticos presente na atmosfera e entender como diferentes formatos, cores e tamanhos interagem com a radiação solar. No entanto, as evidências já são consideradas suficientes para justificar esforços internacionais de redução da poluição plástica, tanto pelos impactos ambientais e na saúde humana já conhecidos quanto por essa nova dimensão climática.

“Eventualmente, os efeitos climáticos podem ser mais um motivo para isso”, afirmou Andreas Stohl, professor da Universidade de Viena e revisor da pesquisa, em declarações reproduzidas pelo jornal Washington Post. A pesquisa publicada na Nature Climate Change adiciona uma nova camada de preocupação à onipresença dos microplásticos em diversos ambientes, desde rios e oceanos até o corpo humano.

Fonte: Um Só Planeta

Wendell Oliveira é editor da Globosfera e escreve sobre tecnologia, ciência, saúde, tendências digitais e atualidades, com foco em conteúdo informativo, claro e acessível.
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