Escrita da Ilha de Páscoa Pode Ter Sido Criada Independentemente, Sugere Estudo

O Rongorongo, enigmático sistema de escrita da Ilha de Páscoa (Rapa Nui), pode ter sido desenvolvido de forma autônoma pelo povo local, segundo uma nova pesquisa que lança luz sobre um dos grandes mistérios linguísticos da humanidade. Um estudo publicado em 2024 na revista Scientific Reports utilizou datação por radiocarbono em artefatos de madeira com inscrições, sugerindo uma origem anterior ao contato europeu.

Evidências de Origem Independente

A pesquisa, conduzida pela arqueóloga e linguista Silvia Ferrara, da Universidade de Bolonha, analisou artefatos de madeira com inscrições de Rongorongo. Os resultados da datação por radiocarbono indicam que ao menos uma das peças pode ter sido produzida entre 1493 e 1509. Essa datação é anterior à chegada dos primeiros europeus à ilha, ocorrida em 1722, o que reforça a hipótese de que o sistema de escrita tenha sido desenvolvido de maneira independente pelo povo Rapa Nui.

O desenvolvimento autônomo de sistemas de escrita é considerado raro na história, geralmente associado a sociedades complexas como as da Mesopotâmia, Egito, China e Mesoamérica. Além disso, o estudo aponta que o Rongorongo apresenta características muito distintas das línguas europeias, o que corrobora a ideia de ausência de influência externa em sua concepção.

Ressalvas e Desafios da Pesquisa

Apesar das descobertas promissoras, o estudo apresenta ressalvas importantes. A datação por radiocarbono determina quando a madeira foi cortada, mas não necessariamente quando foi entalhada. Contudo, Ferrara considera improvável o uso de madeira muito antiga para a criação dos artefatos. Outro ponto a ser considerado é que apenas uma das tábuas analisadas apresentou data anterior ao contato europeu; as demais parecem ter sido produzidas posteriormente.

A tarefa de avançar nas conclusões é dificultada pela escassez de exemplares. Os poucos artefatos remanescentes de Rongorongo estão espalhados pelo mundo e possuem acesso limitado, tornando a análise de outros exemplares um desafio significativo. Mesmo assim, a pesquisa representa um passo crucial para a compreensão das contribuições culturais dos povos nativos da Ilha de Páscoa.

Um Povo Isolado e Sua Escrita

Localizada a cerca de 3.800 quilômetros da costa do Chile, a Ilha de Páscoa é um dos lugares mais isolados do planeta. Seus habitantes originais chegaram entre 1150 e 1280 d.C. e viveram por séculos em relativo isolamento até a chegada do navegador holandês Jacob Roggeveen em 1722. Naquela época, os europeus encontraram não apenas as icônicas estátuas moai, mas também vestígios do Rongorongo.

O Rongorongo é um sistema de escrita peculiar, composto por sinais pictográficos tridimensionais chamados glifos, cuja decifração ainda representa um grande desafio para os estudiosos. Atualmente, a escrita sobrevive em apenas 27 objetos de madeira, nenhum dos quais permanece na ilha. A maioria foi retirada por missionários nas décadas de 1860 e 1870 e levada para o exterior, com algumas inscrições chegando a ser intencionalmente destruídas ao longo do tempo.

Fonte: Aventuras Na história

Wendell Oliveira é editor da Globosfera e escreve sobre tecnologia, ciência, saúde, tendências digitais e atualidades, com foco em conteúdo informativo, claro e acessível.
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