Cientistas da Universidade de Manchester, no Reino Unido, estão desenvolvendo uma tecnologia inovadora que visa combater o aquecimento global através da manipulação de nuvens. A proposta consiste em borrifar névoa de água salgada em nuvens marinhas para aumentar sua capacidade de refletir a luz solar de volta para o espaço, um processo conhecido como clarificação de nuvens.
Projeto Reflect e Financiamento
Esta iniciativa integra o projeto Reflect, que recebe financiamento da Agência de Pesquisa e Invenção Avançada (Aria) do governo britânico. O projeto faz parte de um programa mais amplo de £ 57 milhões (aproximadamente R$ 385 milhões) que reúne 22 grupos de pesquisa focados em alternativas de alto risco e alto impacto para desacelerar as mudanças climáticas. A pesquisa busca replicar e controlar um fenômeno natural já observado.
A Ciência por Trás da Reflexão Solar
A base científica da clarificação de nuvens reside no fato de que nuvens compostas por gotículas menores são mais eficazes em refletir a luz solar do que aquelas com partículas maiores. Fenômenos naturais, como grandes erupções vulcânicas que injetam aerossóis na atmosfera, já demonstraram essa capacidade de aumentar a cobertura de nuvens e reduzir temporariamente as temperaturas globais. De forma semelhante, as trilhas de fumaça deixadas por navios cargueiros movidos a diesel também influenciavam a reflexividade das nuvens. No entanto, a transição global para combustíveis com baixo teor de enxofre, exigida por normas de poluição marítima, reduziu essa reflexividade em cerca de 3% na última década, contribuindo para o aquecimento.
O projeto Reflect busca recriar esse efeito de maneira controlada, utilizando sal marinho em vez de poluentes. Em laboratório, os pesquisadores trabalham em uma câmara de aço inoxidável para calibrar o tamanho ideal das partículas de sal. Partículas muito grandes podem prejudicar a formação de nuvens, enquanto as muito pequenas podem não ativar o processo de condensação com intensidade suficiente.
Testes ao Ar Livre e Limitações
Se os experimentos em laboratório progredirem conforme o esperado, a equipe planeja realizar o primeiro ensaio ao ar livre no Reino Unido em 2027. A proposta envolve a pulverização de uma pluma de vapor salino por alguns minutos em uma área a poucos quilômetros da costa britânica. Sistemas de drones e radares serão empregados para monitorar a dispersão das partículas e garantir que a intervenção permaneça contida na área designada.
O professor Hugh Coe, diretor do Instituto de Pesquisa Ambiental de Manchester e coordenador do projeto, ressalta que a clarificação de nuvens não é a solução definitiva. “A solução a longo prazo é não ter tanto carbono na atmosfera”, afirma. Ele vê a técnica como uma forma de ganhar tempo, abrindo um “espaço” para que as emissões sejam reduzidas, especialmente se os cortes não ocorrerem com a rapidez necessária.
Controvérsias e Riscos da Geoengenharia
A geoengenharia solar, categoria à qual pertence a clarificação de nuvens, é uma área científica altamente controversa. Críticos argumentam que tais abordagens podem servir como pretexto para que governos e empresas adiem a implementação de cortes reais nas emissões de gases de efeito estufa, tratando apenas os sintomas e não a causa fundamental do problema.
Os riscos científicos também são significativos. Um estudo da Escola de Clima de Columbia indicou que a aplicação da clarificação de nuvens no Pacífico Oriental poderia reduzir a amplitude do fenômeno El Niño em até 61%, com potenciais impactos graves nos padrões climáticos e na precipitação em todo o mundo. Outra pesquisa da mesma instituição sugere que a injeção de aerossóis na estratosfera poderia perturbar sistemas de monções tropicais e afetar os níveis dos oceanos.
A pesquisadora Ying Chen, especialista em clarificação de nuvens da Universidade de Birmingham, que não está envolvida no projeto, aponta que alterar a irradiação solar em um ponto do planeta pode gerar mudanças nos padrões atmosféricos em outras regiões, mas a magnitude desses efeitos ainda é incerta. O professor Coe reconhece a possibilidade de interferência climática, mas defende a importância de compreender completamente essa alternativa de último recurso antes que ela possa ser necessária, para evitar a criação de problemas ainda maiores.
Fonte: Um Só Planeta


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