Brasil debate endurecimento da política de drogas: avanço ou retrocesso?

A aprovação de uma proposta de emenda à Constituição (PEC) pelo Senado na última terça-feira (16) reacende o debate sobre a política de drogas no Brasil. A medida prevê a criminalização da posse de qualquer quantidade de substâncias ilícitas e, caso seja confirmada pela Câmara dos Deputados, pode colocar o país em descompasso com organismos internacionais, além de reacender discussões sobre os rumos da legislação no continente.

Realidade do sistema prisional e a Lei de Drogas

O Brasil já enfrenta um cenário de encarceramento em massa. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam que mais de 670 mil pessoas estão presas, sendo aproximadamente 29% por crimes relacionados ao tráfico de drogas. A Lei nº 11.343/2006 representou uma tentativa de avanço ao substituir a prisão de usuários por medidas educativas. No entanto, a ausência de critérios objetivos para diferenciar usuário e traficante mantém margem para interpretações subjetivas, muitas vezes definidas em abordagens policiais sem considerar fatores sociais relevantes.

O perfil do preso por tráfico e o impacto social

A aplicação prática da legislação evidencia um impacto desigual na sociedade. Estudos apontam que cerca de 30% dos homens e 60% das mulheres encarceradas estão presos por tráfico. A maioria das detenções ocorre em vias públicas, frequentemente sem investigação prévia. O perfil predominante envolve pessoas negras, jovens, de baixa renda e com menor escolaridade. Em muitos casos, os detidos afirmam que a substância era destinada ao uso pessoal e não estavam armados, o que reforça o debate sobre hiperencarceramento e seus efeitos, incluindo o possível fortalecimento de organizações criminosas.

STF e a PEC 45: caminhos divergentes para a política de drogas

Enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) analisa a constitucionalidade do artigo 28 da Lei de Drogas — discutindo se o porte para consumo pessoal pode ser punido mesmo sem impacto direto a terceiros — o cenário legislativo avança em direção oposta. A PEC 45, articulada pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, propõe a proibição da descriminalização e inclui medidas como a possibilidade de internação involuntária de usuários. Especialistas apontam que o endurecimento da legislação pode não resolver o problema estrutural e pode gerar novos desafios no sistema penal e de saúde pública.

Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública; legislação brasileira (Lei nº 11.343/2006); debates no Senado e STF.

Wendell Oliveira é editor da Globosfera e escreve sobre tecnologia, ciência, saúde, tendências digitais e atualidades, com foco em conteúdo informativo, claro e acessível.