Leslie Howard: O ator de ‘E o Vento Levou’ que teria sido espião e alvo nazista

A misteriosa morte do aclamado ator britânico Leslie Howard, eternizado no papel de Ashley Wilkes em E o Vento Levou, continua a gerar especulações décadas após o ocorrido. Em 1º de junho de 1943, Howard, que se dedicava ao esforço de guerra britânico com produções antinazistas, estava a bordo do voo 777 da BOAC quando a aeronave civil foi abatida por oito caças alemães sobre o oceano, resultando na morte de todas as 17 pessoas a bordo. A circunstância levanta a hipótese de que o ator, além de sua carreira artística, pudesse ter atuado como um agente secreto a serviço do Reino Unido.

Da atuação ao esforço de guerra

Nascido Leslie Howard Steiner em 3 de abril de 1893, o ator britânico iniciou sua trajetória profissional como funcionário de banco antes de servir na Primeira Guerra Mundial. Após o conflito, diagnosticado com trauma psicológico, o conselho médico para buscar uma carreira nas artes o levou ao teatro. Rapidamente, Howard ganhou destaque nos palcos de Londres, expandindo sua carreira para a Broadway e, em 1930, estreando em Hollywood com Outward Bound. Sua performance em Berkeley Square (1933) e Pigmalião (1938) lhe renderam indicações ao Oscar, consolidando seu nome no cinema internacional. Em 1939, interpretou Ashley Wilkes em E o Vento Levou, um dos filmes mais icônicos do século 20.

Com o advento da Segunda Guerra Mundial, Howard decidiu retornar à Inglaterra para contribuir ativamente com o esforço bélico. Ele passou a atuar em transmissões de rádio e a produzir filmes com forte mensagem antinazista. Em 1941, estrelou O Paralelo 49, com o objetivo de influenciar a opinião pública americana, e dirigiu e protagonizou Pimpernel Smith, onde interpretava um acadêmico que resgatava prisioneiros dos nazistas. No ano seguinte, realizou The First of the Few (conhecido como Spitfire, o 1º Entre Poucos), uma cinebiografia sobre a criação do icônico avião de caça britânico.

Alvo de Hitler e a trágica viagem

As produções de Leslie Howard, especialmente Pimpernel Smith, teriam irritado o ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, que se sentiu mal retratado. Essa animosidade é apontada por alguns como um fator que pode ter transformado o ator em um alvo prioritário para o regime nazista. Em 1º de junho de 1943, Howard embarcou no voo 777 da BOAC em Lisboa, com destino a Bristol, na Inglaterra. Relatos indicam que ele teria confidenciado à sua esposa um pressentimento incomum antes da viagem.

Durante o trajeto, a aeronave civil foi interceptada por oito caças alemães Junkers Ju-88, que decolaram da França ocupada. Pouco antes do ataque, o piloto conseguiu enviar uma mensagem em código Morse relatando a perseguição e o ataque iminente. O avião foi abatido sobre o oceano Atlântico, sem deixar sobreviventes. A imprensa nazista, posteriormente, celebrou o incidente com manchetes provocativas, como uma atribuída ao próprio Goebbels: “Pimpinel Howard fez sua última viagem”.

Teorias sobre o ataque fatal

Após a guerra, pilotos alemães apresentaram a justificativa de que não sabiam se tratar de uma aeronave civil, uma explicação recebida com ceticismo por muitos. Diversas teorias surgiram para tentar desvendar as circunstâncias do ataque. Uma das mais fortes sugere que Leslie Howard era, de fato, um agente britânico em uma missão secreta para influenciar o ditador espanhol Francisco Franco a não se aliar aos nazistas. Outra hipótese aponta que sua intensa atividade propagandística antinazista foi o principal motivo para a decisão de Goebbels de ordenar o ataque.

Uma possibilidade intrigante é que o ataque tenha sido um erro estratégico dos alemães. Há quem acredite que os nazistas pensavam que o primeiro-ministro britânico Winston Churchill estava a bordo. Essa suspeita teria sido reforçada pela presença de Alfred Chenhalls, empresário de Howard, que possuía semelhança física com Churchill e compartilhava o hábito de fumar charutos. O próprio Churchill mencionou essa teoria em suas memórias. Além disso, outros passageiros poderiam ser considerados alvos relevantes, como Tyrell Shervington, ligado à Shell em Lisboa e com conexões com o serviço secreto britânico, e Wilfrid Israel, figura chave no resgate de milhares de crianças judias durante o regime nazista.

Apesar das múltiplas teorias e da falta de uma confirmação oficial, o destino de Leslie Howard permanece envolto em mistério. Se foi uma vítima inocente da guerra ou um agente secreto em uma missão perigosa, a verdade sobre seus últimos dias pode jamais ser totalmente revelada.

Fonte: Aventuras Na história

  • Matéria Original Globosfera
Wendell Oliveira é editor da Globosfera e escreve sobre tecnologia, ciência, saúde, tendências digitais e atualidades, com foco em conteúdo informativo, claro e acessível.
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