Reino Unido à Beira do Caos: Instabilidade Política e Crise Econômica Levantam Dúvidas Sobre Governabilidade

A cena política do Reino Unido se assemelha a um turbilhão, com mudanças constantes de liderança e incertezas econômicas que levam muitos a questionar se o país se tornou ingovernável. Anthony Seldon, renomado biógrafo dos últimos oito primeiros-ministros britânicos, expressa sua dificuldade em acompanhar o ritmo acelerado dos acontecimentos, temendo que seu trabalho de documentação se torne obsoleto antes mesmo de ser concluído.

O cenário atual é de profunda instabilidade. Após um período em que o Partido Conservador viu três líderes assumirem o cargo em menos de um ano, a expectativa era de um retorno à normalidade com a vitória esmagadora de Keir Starmer e do Partido Trabalhista em 2024, prometendo uma “década” de renovação nacional. No entanto, menos de dois anos após sua posse, Starmer já enfrenta forte pressão interna para renunciar, impulsionada por resultados desfavoráveis em eleições locais na Inglaterra, Escócia e País de Gales.

Um Ciclo de Lideranças e Crises

A biografia de Rishi Sunak, antecessor de Starmer, que será publicada em agosto, pode chegar às livrarias quando o Reino Unido já estiver em busca de seu sexto primeiro-ministro em apenas sete anos. Seldon, em entrevista à CNN, lamentou a situação, mencionando ironicamente a possibilidade de escrever sobre Angela Rayner, uma figura proeminente do Partido Trabalhista, como a próxima ocupante do número 10 de Downing Street.

A instabilidade na liderança do governo reflete problemas estruturais mais profundos. O país ainda não se recuperou totalmente da crise financeira de 2008, com salários estagnados por grande parte do período e um impacto estimado de até 8% na redução do PIB per capita devido ao Brexit. O crescimento da produtividade é morno, a dívida pública aumentou, resultando nos maiores rendimentos de títulos do governo entre os países do G7, e os custos de eletricidade industrial são os mais elevados do grupo.

O Sistema Eleitoral Sob Tensão

O sistema eleitoral britânico, baseado em maioria simples, que funcionava bem com dois partidos dominantes (Trabalhistas e Conservadores), agora demonstra sinais de tensão. O declínio dessa hegemonia transformou a política em uma disputa acirrada de cinco vias na Inglaterra e de seis vias na Escócia e País de Gales. Os partidos tradicionais competem contra os Liberais Democratas, os Verdes, o Reform UK e os partidos nacionalistas escoceses e galeses, que buscam a independência e ameaçam a própria unidade do Reino Unido, formado em 1707 (Escócia) e 1536 (País de Gales).

Diante desse cenário, surge a tentação de considerar o bom governo como quase impossível. Contudo, Seldon rejeita essa visão, argumentando que ela serve apenas para isentar os líderes recentes de suas responsabilidades. Ele critica as falhas de seus antecessores conservadores: Boris Johnson, com sua ambição “Rooseveltiana” mas sem entrega; Liz Truss, cuja “Reaganite” busca por uma economia libertária levou a um plano de corte de impostos não financiado que quase colapsou os mercados financeiros, resultando em seu mandato de apenas 49 dias; e Rishi Sunak, um “Hooverista” fã da austeridade, que assumiu em um momento de exaustão popular com os Conservadores.

A Busca por uma Narrativa e a Falta de Vendas

Com Keir Starmer, as comparações com presidentes americanos são menos claras. Seldon vê “elementos de Jimmy Carter” em Starmer: honestidade, decência e integridade, mas de forma “esmagadora”, que parece estar “um pouco além dele”. O cientista político Ben Ansell, da Universidade de Oxford, compara Starmer a um médico que constata a gravidade da doença do paciente sem propor uma cura. A decisão de Starmer de não aumentar os três principais impostos durante a campanha eleitoral de 2024 limitou seu governo, forçando-o a buscar receitas em fontes impopulares como escolas privadas, agricultores e bancos, criando “muitos inimigos e poucos amigos”.

Esses erros políticos poderiam ser perdoados se Starmer apresentasse uma narrativa política convincente. Após a crise de 2008, David Cameron comunicou claramente a necessidade de austeridade. Embora os Conservadores não tenham conseguido impulsionar o crescimento ou reduzir a dívida, Cameron “continuou a martelar” a mensagem de “aparar as velas”, garantindo sua reeleição em 2015. Starmer, por outro lado, prometeu “mudança” sem detalhar o quê ou como, falhando em apresentar uma “história” para o país, segundo Seldon.

Apesar das críticas, o governo de Starmer pode se reerguer. Ele prometeu não renunciar para evitar o “caos” anterior. Aliados apontam para melhorias, como a queda nas listas de espera do Serviço Nacional de Saúde (NHS), que registraram a maior redução mensal fora da pandemia desde 2008. Wes Streeting, secretário de saúde, afirmou que o NHS está no caminho certo para a “redução mais rápida nos tempos de espera” de sua história. A credibilidade internacional do Reino Unido também teria sido restaurada após anos de antagonismo pós-Brexit.

No entanto, um primeiro-ministro precisa “vender” suas conquistas. Ansell compara a situação a um vendedor inexperiente: “Se você é um mau vendedor, não importa quão bons sejam os produtos que você tem à venda – ou quão inócuos, neste caso – toda vez que você tenta fazer uma venda, a situação fica pior”. O público reage a alguém sem carisma que não consegue “vender coisas” e é “amplamente odiado”.

Em busca de um “vendedor melhor”, muitos parlamentares trabalhistas olham para Andy Burnham, prefeito de Grande Manchester, considerado o político mais popular do Reino Unido. Burnham defende o “Manchesterismo”, um socialismo “aspiracional” e pró-negócios. Sua ascensão, contudo, é incerta, pois ele precisa primeiro conquistar um assento parlamentar. Uma eleição especial em Makerfield, desencadeada pela renúncia de um deputado trabalhista para abrir caminho a Burnham, pode ser decisiva. Se Burnham perder para o Reform UK, as perspectivas eleitorais do Partido Trabalhista podem ser enterradas, e o Reino Unido mergulhar ainda mais em um futuro “sombrio”, tornando-se, de fato, ingovernável.

Fonte: CNN BRASIL

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Wendell Oliveira é editor da Globosfera e escreve sobre tecnologia, ciência, saúde, tendências digitais e atualidades, com foco em conteúdo informativo, claro e acessível.