A França apresentou um plano detalhado para eliminar gradualmente o uso de combustíveis fósseis em suas operações energéticas até 2050, com metas ambiciosas de zerar o consumo de carvão até 2030, petróleo até 2045 e gás fóssil até 2050. O compromisso abrange não apenas o território metropolitano, mas também a Guiana Francesa e todos os seus departamentos ultramarinos, conforme anunciado por Benoit Faraco, embaixador da França para as negociações climáticas.
Transição Energética nos Territórios Ultramarinos
Durante a Primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, realizada em Santa Marta, na Colômbia, Faraco explicou que o plano é resultado de anos de trabalho, com intensificação nos últimos quatro meses a pedido do presidente Emmanuel Macron. Ele destacou que a conversa com a Guiana Francesa sobre evitar a rota da exploração petroleira já dura uma década. “Foi difícil, porque, do ponto de vista da Guiana Francesa, é compreensível que queiram ir por esse caminho. Eles têm poucas oportunidades de desenvolvimento econômico”, admitiu o embaixador, comparando a situação com os desafios da Amazônia brasileira em encontrar modelos econômicos alternativos.
O governo francês rejeitou firmemente uma proposta recente no parlamento que visava reautorizar a exploração de combustíveis fósseis na Guiana Francesa, reafirmando o compromisso com a transição energética. Faraco expressou confiança em alternativas que beneficiarão a comunidade local, os povos indígenas e as autoridades, superando os potenciais ganhos da exploração de fósseis. A meta é que todos os territórios ultramarinos franceses alcancem uma matriz elétrica livre de combustíveis fósseis até 2030.
Exemplos e Investimentos na Guiana Francesa

A Guiana Francesa, vizinha do Amapá (Brasil), que atualmente possui um bloco de exploração de petróleo em fase de prospecção, está direcionando investimentos significativos para hidrogênio e biomassa líquida. A ilha de La Reunion, no Oceano Índico, é apresentada como um caso de sucesso, onde o carvão e o petróleo representavam 62% da matriz elétrica há seis anos, e agora 97% da energia provém de fontes renováveis. “Com o investimento certo e a tecnologia adequada, a transição energética é viável”, afirmou Faraco, ressaltando a necessidade de encontrar recursos financeiros para implementar essas soluções em comunidades.
Para atingir a meta de eliminação do carvão até 2030, a França planeja fechar suas duas últimas usinas termelétricas a carvão até 2027. A redução do consumo de petróleo será impulsionada pela eletrificação em larga escala do transporte, incluindo o desenvolvimento de estações de recarga e a eletrificação de veículos pesados e ônibus, alinhada às metas europeias de redução de emissões de CO₂. Paralelamente, o país investirá em métodos alternativos de aquecimento, como bombas de calor, e na melhoria da eficiência energética de edifícios para diminuir o uso de gás fóssil.
Metas Setoriais e Comparativo com o Brasil
A estratégia francesa inclui metas específicas por setor: 66% das vendas de carros novos serão elétricos até 2030, com um aumento de 25% na utilização do transporte público. A descarbonização da indústria também é um pilar, com foco nos 50 maiores complexos industriais do país. Kerlem Carvalho, coordenadora de Oceano e Águas do Instituto Arayara, elogiou a ambição francesa, mas contrastou com o Plano de Transição Energética do Brasil, divulgado recentemente. Segundo Carvalho, o plano brasileiro prevê a continuidade do uso de carvão, petróleo e gás até 2055, o que “nos afasta bastante da França, uma vez que eles pretendem eliminar o carvão até 2030”.
A conferência em Santa Marta reuniu representantes de 56 países para discutir a dependência de combustíveis fósseis. A ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez, destacou a importância da ação coletiva, lembrando que o país aumentou sua matriz energética renovável de 1% para 16% em três anos. O presidente colombiano, Gustavo Petro, criticou o que chamou de “fracasso” das COPs e da ONU, defendendo a necessidade de conquistar poder para enfrentar a crise climática. Selwin Hart, assessor da ONU, alertou sobre “interesses políticos poderosos” que trabalham para atrasar a transição.
O Brasil, embora buscando construir um mapa do caminho mundial para a transição energética, teve uma participação mais discreta no evento. Ana Toni, CEO da COP30, e Aloisio de Melo, secretário de Mudança Climática do MMA, representaram o governo brasileiro, enfatizando a busca por ações pragmáticas e soluções concretas. A expectativa é que o Brasil ganhe mais força na próxima edição da conferência, que ocorrerá em Tuvalu.
Fonte: Um Só Planeta










Deixe uma resposta