Estudo revela diversidade genética única e povoamento complexo dos indígenas americanos

Uma pesquisa inédita, com participação da Universidade de São Paulo (USP), lança nova luz sobre a história evolutiva e a diversidade genética dos povos indígenas das Américas. Publicado na revista Nature, o estudo analisou 128 genomas completos de indivíduos de 8 países latino-americanos, revelando um panorama genético complexo e antes pouco caracterizado, que desafia modelos simplistas de povoamento do continente.

Um Povoamento Complexo e Múltiplas Migrações

Os dados genômicos analisados indicam que o processo de povoamento das Américas foi significativamente mais intrincado do que se imaginava. A pesquisa aponta para a ocorrência de pelo menos três dispersões migratórias distintas para a América do Sul, seguidas por um longo período de diferenciação regional e continuidade populacional. Essa complexidade contrasta com visões mais antigas que sugeriam um único evento de povoamento.

A professora Tábita Hünemeier, do Instituto de Biociências (IB) da USP e líder da pesquisa, destaca a importância de estudos como este para as comunidades indígenas. “Muitas perguntas que estão respondidas para outros continentes ainda não foram respondidas para a América”, afirma. “No momento em que os estudos genéticos se estabelecem, é possível trazer soluções para essas pessoas do ponto de vista de saúde, por exemplo. Se não existem estudos sobre alguns povos, essa parte da população está sendo negligenciada.”

Parceria com Comunidades e Devolutivas Acessíveis

O estudo foi viabilizado por meio de uma parceria direta com comunidades autóctones de países como Argentina, México, Bolívia e Peru. Essa colaboração permitiu não apenas a coleta de dados de alta qualidade, mas também a geração de devolutivas acessíveis para os povos estudados, incluindo resultados clínicos e análises de ancestralidade, fortalecendo o vínculo entre a ciência e as populações originárias.

O conjunto de dados, que representa 45 populações e 28 famílias linguísticas, expande a representação indígena na genômica, com foco especial em populações geograficamente e linguisticamente diversas, e nas terras baixas da América do Sul. Para as análises, os genomas contemporâneos foram integrados com dados de genomas antigos, permitindo uma visão mais completa da história evolutiva.

Desafios na Análise Genética e Influências Culturais

A pesquisa combinou duas metodologias de análise genética: a “identidade por descendência” (IBD), eficaz para eventos recentes, e abordagens coalescentes, ideais para eventos antigos. Essa combinação permitiu uma visão mais completa da história evolutiva, desde a separação dos ancestrais asiáticos até a diferenciação dentro do continente e o impacto duradouro da colonização europeia.

A análise, no entanto, enfrentou desafios. A degradação e fragmentação do DNA antigo, além das condições ambientais do Brasil – como clima quente e solo ácido que afetam a conservação de ossos –, dificultaram a obtenção de informações completas. “Tem um buraco aí entre os dois, porque o nosso é genoma completo de alta fidelidade e o genoma antigo é encontrado em fragmentos”, explica Hünemeier.

Os resultados indicam que a diversidade genética dos povos indígenas americanos é moldada por uma complexa interação entre distância geográfica, história populacional e interações culturais. Fatores como migrações, isolamento de grupos e aspectos culturais tiveram grande influência, demonstrando que a diversidade não é explicada apenas pela geografia.

A professora ressalta a importância de um olhar multifacetado: “Não foi um estudo genético ‘esvaziado’, sem levar em conta todos os outros processos humanos que têm impacto na evolução e diversificação dos povos.” A pesquisa também contribui para o debate sobre o povoamento da América, sugerindo três ondas migratórias e revelando afinidades surpreendentes com populações da Australásia.

Este estudo é considerado um passo fundamental para a construção de uma narrativa mais fidedigna sobre a história dos povos indígenas americanos, abrindo caminho para novas perguntas e aprofundando a compreensão de sua rica e única diversidade genética e evolutiva.

Fontes: Nature; Jornal da USP.

Wendell Oliveira é editor da Globosfera e escreve sobre tecnologia, ciência, saúde, tendências digitais e atualidades, com foco em conteúdo informativo, claro e acessível.
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