Cientista contesta datações de arte rupestre de 67.800 anos: ‘Não é confiável’

A antiguidade da arte rupestre, frequentemente revelada por métodos de datação, está sob escrutínio. O cientista Georges Sauvet, pesquisador do Centro de Pesquisas e Estudos de Arte Pré-Histórica da França, levantou sérias contestações sobre a confiabilidade do método de datação Urânio-Tório (U-Th), amplamente utilizado para estimar a idade de símbolos pré-históricos. Segundo Sauvet, a aplicação deste método pode estar levando a uma superestimação da idade de artefatos, distorcendo a compreensão da inteligência de espécies ancestrais como o Homo sapiens e os neandertais.

O método Urânio-Tório e suas limitações

O método U-Th é empregado em casos onde resquícios orgânicos, essenciais para a datação por radiocarbono, estão ausentes. Ele se baseia no decaimento radioativo do urânio em tório, que ocorre em depósitos de calcário formados pela água que escorre sobre a arte rupestre. A proporção entre urânio e tório aprisionados no calcário permite calcular a idade do depósito. No entanto, Sauvet aponta um defeito primordial: o processo não ocorre exclusivamente em sistemas fechados. A água que circula em cavernas pode lixiviar o urânio, alterando as proporções e, consequentemente, a idade estimada.

Controvérsias em datações recentes

A contestação de Sauvet ganha força ao analisar descobertas recentes, como a suposta arte rupestre mais antiga do mundo, localizada na Indonésia e datada de 67.800 anos. Ele argumenta que pesquisadores estão em uma “corrida em direção à arte rupestre mais antiga”, sendo menos cautelosos com a metodologia. Um exemplo citado é a pesquisa de Dirk Hoffmann, que datou desenhos em cavernas espanholas em 65.000 anos. Essa datação implicaria que as pinturas foram feitas por neandertais, uma conclusão que Sauvet considera sem base, pois “não há absolutamente nenhuma prova arqueológica” que sustente a capacidade artística neandertal nessa escala temporal.

Para reforçar sua tese, Sauvet menciona o caso da caverna de Nerja, no sul da Espanha. Ali, uma datação U-Th indicou 119.000 anos para uma arte rupestre, enquanto uma análise por radiocarbono apontou cerca de 19.000 anos. Em outra região da mesma caverna, uma camada de calcita ofereceu uma data de 14.000 anos. Essas discrepâncias, segundo Sauvet, demonstram como sistemas abertos podem superestimar a idade de artefatos, levando a conclusões equivocadas sobre as capacidades de nossos ancestrais.

Defesa do método e novas tecnologias

Apesar das críticas, outros cientistas defendem a validade do método U-Th, ressaltando que todos os métodos de datação possuem limitações. João Zilhão, professor pesquisador da Universidade de Lisboa e coautor de estudos sobre arte rupestre espanhola, afirmou que generalizar a falha do método U-Th com base em casos de sistemas abertos seria um exagero. Ele sugere que a responsabilidade recai sobre a aplicação correta do método por parte dos arqueólogos.

Nesse contexto, avanços tecnológicos buscam aprimorar a precisão. Adelphine Bonneau, professora assistente do Departamento de Química da Universidade de Sherbrooke, está desenvolvendo tecnologias para analisar desvios causados pela água, visando melhorar a seleção de materiais para estudo. Ela concorda que Sauvet está certo em princípio, mas enfatiza que, “se os cientistas fizerem seu trabalho corretamente, as datas são confiáveis”. As críticas de Sauvet, contudo, já impulsionam a comunidade científica a revisar e refinar as datações de arte rupestre.

Fonte: Aventuras Na história

Wendell Oliveira é editor da Globosfera e escreve sobre tecnologia, ciência, saúde, tendências digitais e atualidades, com foco em conteúdo informativo, claro e acessível.