Bactérias ‘explodem’ para espalhar resistência a antibióticos, revela estudo

Cientistas do John Innes Centre identificaram novos mecanismos que explicam como bactérias compartilham genes — incluindo aqueles ligados à resistência antimicrobiana (AMR), um dos principais desafios globais de saúde pública.

A descoberta envolve estruturas conhecidas como agentes de transferência de genes (GTAs), partículas capazes de transportar DNA entre células bacterianas.

O que são GTAs

Os GTAs são estruturas semelhantes a vírus (bacteriófagos), mas não atuam como agentes infecciosos. Eles derivam de vírus antigos que foram incorporados ao funcionamento das bactérias ao longo da evolução.

Essas partículas funcionam como “transportadores” de DNA, permitindo a chamada transferência horizontal de genes — um processo que acelera a troca de características entre bactérias.

Como o DNA é liberado

Para que os GTAs sejam liberados, a célula bacteriana precisa se romper, em um processo chamado lise celular. Até recentemente, os mecanismos que controlam essa etapa não eram totalmente compreendidos.

Em estudo publicado na revista Nature Microbiology, pesquisadores analisaram a bactéria Caulobacter crescentus e identificaram os genes responsáveis por esse processo.

Sistema LypABC: o controle da lise

A equipe descobriu um conjunto de três genes chamado LypABC, que atua como um sistema de controle para a ruptura celular.

Experimentos mostraram que:

  • Sem LypABC, as células não conseguem liberar GTAs
  • Com ativação excessiva, ocorre lise em larga escala

Isso indica que o sistema funciona como um regulador central desse processo.

Um sistema imunológico reaproveitado

Uma das descobertas mais relevantes é que o LypABC possui características semelhantes a sistemas bacterianos de defesa contra vírus.

Nesse caso, porém, o mecanismo parece ter sido reutilizado pelas bactérias para facilitar a liberação de GTAs e promover a troca genética.

Importância para a resistência antimicrobiana

A transferência de genes mediada por GTAs pode contribuir para a disseminação de características como resistência a antibióticos, tornando infecções mais difíceis de tratar.

Compreender esses mecanismos é fundamental para entender como essas resistências se espalham entre populações bacterianas.

Próximos passos da pesquisa

Os pesquisadores agora buscam entender como o sistema LypABC é ativado e regulado em diferentes condições.

Segundo a pesquisadora Emma Banks, o estudo revela como mecanismos biológicos podem ser adaptados para novas funções ao longo da evolução.

Fontes: Estudo publicado na revista Nature Microbiology e dados do John Innes Centre.

Wendell Oliveira é editor da Globosfera e escreve sobre tecnologia, ciência, saúde, tendências digitais e atualidades, com foco em conteúdo informativo, claro e acessível.
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