Do Altar Tolteca à Ficção: Ritos Antigos Moldam Identidade Humana

A história da humanidade é intrinsecamente ligada a rituais. Do Egito Antigo às metrópoles modernas, o ato de atribuir significado sagrado a objetos e ações tem sido fundamental para a sustentação da identidade de povos e famílias ao longo de milênios.

Recentemente, essa conexão entre o passado remoto e o presente ganhou destaque com a descoberta de um altar de pedra com mil anos no México. Utilizado para sacrifícios humanos pelo Império Tolteca, o achado ocorreu durante as obras da ferrovia Cidade do México–Querétaro, no estado de Hidalgo, próximo à antiga capital tolteca, Tula. A descoberta evidencia a persistência de símbolos que, apesar da distância temporal, ainda ressoam no imaginário contemporâneo.

Convergência entre Arqueologia e Ficção

A ponte entre o rito ancestral e o comportamento atual é o cerne de ‘Canil dos Condenados’, novo thriller do escritor afro-nipo-brasileiro Vinicius Tetsuko, que assina como TetsuUcorvo. Na obra, a tradicional família Canavarro, inserida na máfia paulistana, é acorrentada a um legado sobrenatural com origens no México e na entidade Xolotl. Em entrevista exclusiva, Tetsuko analisa como a descoberta em Tula e a ficção convergem para explicar a necessidade humana de criar laços — e prisões — por meio do ritual.

O Altar de Tula e a Estrutura Social

A estrutura identificada pelo Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH) é um momoztli, um altar quadrado de três níveis onde foram encontrados quatro crânios humanos e ossos longos. Segundo os arqueólogos, os vestígios da fase Tollana (900-1150 d.C.) indicam que a decapitação era parte de um processo ritualístico que envolvia lâminas de obsidiana e oferendas cerâmicas.

Para Vinicius Tetsuko, esses atos não eram meras demonstrações de fé, mas ferramentas de estrutura social. “Historicamente, esses ritos selecionavam ou sacrificavam pessoas para apaziguar deuses, dando a elas certos destaques e prestígios sociais”, explica o autor. Ele traça um paralelo com sua narrativa, onde o ritual de escolha do portador de uma relíquia amaldiçoada define a hierarquia familiar.

“No meu livro ‘Canil dos Condenados’, o escolhido — Severino — ganha status, mas também isolamento. Espelhando civilizações antigas, o patriarca da família Canavarro, como um líder hierarquicamente superior, usa ritos e crenças para manter domínio sobre os filhos”, afirma Tetsuko.

Objetos Sagrados e a Conexão com o Abstrato

Um dos pontos que mais chamou a atenção na descoberta em Hidalgo foi a presença de facas de obsidiana e vasos, objetos que reforçam a interpretação de que o local tinha função ritualística e simbólica. Tetsuko acredita que a mente humana exige esse suporte concreto para processar o abstrato.

“Objetos físicos carregados de simbolismo, como o apito ligado a Xolotl no meu conto, aproximam os rituais de algo mais palpável e concreto, quase tangível, o que facilita a conexão com o abstrato e o divino. Além disso, ajudam a preservar e transmitir significados entre gerações, sem depender apenas da oralidade”, afirma o escritor.

A Necessidade Humana de Simbolismo e Laços

Essa necessidade de simbolismo, segundo o escritor, é uma resposta ao “caos da existência”. Transformar momentos em experiências simbólicas e coletivas cria laços que transcendem o indivíduo, como ocorre com os irmãos Severino e Álvaro em sua obra, unidos e divididos por um apito antigo.

“Criamos laços que transcendem o individual, como o ritual familiar no meu livro, que acaba por unir (e ao mesmo tempo dividir) os irmãos Canavarro em torno do apito amaldiçoado”, detalha Tetsuko.

Trocas Simbólicas na Contemporaneidade

Embora as sociedades atuais se considerem puramente racionais, Tetsuko defende que a lógica de troca simbólica observada no altar tolteca — onde se oferecia uma vida em troca de proteção ou ordem — permanece viva, apenas sob novas vestes. “Hoje, acredito que ainda realizamos trocas simbólicas, mesmo que de forma mais sutil: dinheiro por bens materiais, imagem por validação social”, pontua.

Em ‘Canil dos Condenados’, o protagonista vive essa dualidade. Severino abre mão de sua liberdade pessoal pela proteção de uma divindade antiga, Xolotl, enquanto tenta sobreviver em uma São Paulo regida por “novos deuses”, como a reputação e o dinheiro.

Rituais como Ferramenta de Controle e Identidade

“A transmissão de rituais e crenças em núcleos familiares ou comunitários fechados representa um dos conflitos mais clássicos da humanidade: o ‘nós contra eles’. No livro, isso aparece na forma da maldição do apito, passada aos irmãos Canavarro. Originalmente, essa herança simbólica busca preservar identidades ao definir ‘quem somos’ diante do mundo externo”, comenta Tetsuko.

Ele acrescenta que essa herança “funciona como uma âncora emocional e cultural, ainda que, na prática, também gere rupturas”.

Se por um lado o ritual confere identidade, por outro ele pode se tornar uma ferramenta de controle. A descoberta arqueológica sugere que o altar estava em um pátio cercado por residências da elite, indicando que o sagrado era usado para validar o poder político. Para Tetsuko, o limite entre pertencimento e submissão é ultrapassado quando o equilíbrio se perde.

“Quando a fé se transforma em mercado e o equilíbrio espiritual dá lugar ao fanatismo. Quando há perda de equilíbrio e predomínio de uma única visão de mundo, o controle e a submissão deixam de ser exceção e passam a ser regra”, analisa o autor. Em seu livro, essa transição é clara: a regra de imposing a coragem e lealdade pelo pai torna-se uma prisão de medo e estagnação.

O Fascínio Duradouro pelo Místico

Mesmo em um mundo tecnológico, o fascínio por achados como o de Tula ou por thrillers de horror folclórico continua inabalável. Para Vinicius Tetsuko, isso ocorre porque tais histórias oferecem uma “pausa essencial da frieza analítica do cotidiano, reconectando-nos a desejos mais profundos da existência humana. O místico e o real caminham lado a lado e, de certa forma, é essa relação que impulsiona a própria evolução humana”.

Dessa forma, ao olhar para os ossos encontrados em uma obra ferroviária no México ou para o destino trágico da família Canavarro na ficção, o público busca o mesmo: entender as forças invisíveis que ainda governam as escolhas humanas.

Fonte: Aventuras Na história

Wendell Oliveira é editor da Globosfera e escreve sobre tecnologia, ciência, saúde, tendências digitais e atualidades, com foco em conteúdo informativo, claro e acessível.
Sair da versão mobile