A vida de João Guimarães Rosa, um dos pilares da literatura brasileira do século 20, foi pontuada por eventos que beiram o misticismo e uma notável proximidade com a morte. Diplomata, médico e escritor, Rosa explorou em sua obra e em sua trajetória pessoal temas como destino, espiritualidade e a própria finitude, construindo uma aura lendária ao seu redor.
A Fuga de Hamburgo: Um Cigarro que Salvou Vidas
Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu em 1941, em Hamburgo, Alemanha, onde Rosa servia como cônsul-adjunto. Acordado por uma súbita vontade de fumar durante a madrugada, descobriu que não havia cigarros em casa. Vestindo um sobretudo sobre o pijama, dirigiu-se a um café próximo para comprar um maço. Foi nesse exato momento que sirenes soaram, anunciando um ataque aéreo. Ao retornar na manhã seguinte, encontrou o prédio onde residia completamente destruído pelos bombardeios. A ironia, mais tarde expressa por ele, foi: “Dizem que o cigarro mata. Mas aquele salvou minha vida”.
Essa não foi a única vez que Rosa escapou por pouco da morte na Alemanha. Em outra ocasião, um ataque danificou parcialmente o consulado brasileiro. Apesar da proibição das autoridades alemãs de entrar no edifício comprometido, Rosa desobedeceu, recuperou documentos confidenciais do cofre e saiu pouco antes de a estrutura restante desabar. Sua filha, Vilma, registrou em seu livro ‘Relembramentos’ (1983) que o escritor atribuía essas sobrevivências a um propósito divino: “Deus me reservava uma missão. Por isso, salvou-me da morte duas vezes”, confidenciou à primogênita.
Pressentimentos e Premonições: O Pacto com a Morte
O jornalista Leonêncio Nossa, autor da biografia ‘João Guimarães Rosa – Biografia’, sugere que os incidentes foram ainda mais numerosos, citando a sobrevivência de Rosa a um infarto em 1958, aos 50 anos. A obra de Nossa divide a trajetória do escritor em três fases: o médico (1908-1938), o diplomata rebelde (1938-1951) e o soldado (1951-1967), inspirada em declarações do próprio autor sobre o valor do sofrimento, da consciência e da proximidade da morte.
Uma das histórias mais marcantes envolve uma suposta profecia de uma cigana sobre sua morte. Supersticioso, Rosa acreditava que morreria no dia de sua posse na Academia Brasileira de Letras (ABL). Eleito em agosto de 1963, adiou a cerimônia por quatro anos, três meses e oito dias, tomando posse apenas em 16 de novembro de 1967. Três dias depois, faleceu.
Os dias que antecederam a posse foram de apreensão. Rosa pediu à filha que entregasse os originais de ‘Estas Estórias’ e ‘Ave, Palavra’ ao editor José Olympio, caso a premonição se concretizasse. Ele também expressou sua angústia à neta Busi: “Não se esqueça de mim”. Segundo Nossa, Rosa combinou um sinal secreto com o então presidente da ABL, Austregésilo de Athayde: levar a mão à testa durante o discurso indicaria a necessidade de interromper a sessão. “Você sabe, talvez seja bobagem, mas o mau pressentimento não me abandona”, teria comentado.
No dia da cerimônia, hesitou em sair de casa, dizendo ao amigo Geraldo França de Lima: “Não vou. Vou morrer”. Durante o trajeto, pediu ao motorista voltas extras no quarteirão. Seu discurso de posse, com uma hora e quinze minutos, ecoou frases como “a gente morre é para provar que viveu”. Ao retornar, aliviado, disse: “acabou, graças a Deus…”. No entanto, o temor persistiu. Três dias depois, sentindo fortes dores no peito, ligou para sua secretária, Maria Augusta, anunciando: “Estou morrendo”. Ao ser informado que chamariam um médico, respondeu: “Esquece que sou médico? Sei que estou morrendo”. Foi encontrado caído em seu escritório, vítima de um infarto fulminante.
O Fascínio pelo Sobrenatural e a Criação Literária
O medo da morte coexistia com um fascínio pelo sobrenatural. Segundo a arquiteta Nora Rónai, Rosa acreditava ter feito pactos com o diabo, uma ideia que não era totalmente metafórica. Em entrevista de 1946, o escritor admitiu ter feito “pactos provisórios com o diabo”. O pesquisador Gustavo de Castro, doutor em Ciências Sociais, aponta que o interesse de Rosa pelo tema era profundo, refletido na riqueza de detalhes do pacto de Riobaldo em ‘Grande Sertão: Veredas’.
Rosa descreveu a criação literária como uma luta intensa: “quando me vem o texto, fico nu, rolo no chão, luto com o demo de madrugada no meu escritório e depois, naquele impulso, escrevo”, confidenciou ao poeta Haroldo de Campos em 1966. Campos descreveu a declaração como impressionante, notando que para Rosa, o “demo” não era metáfora, mas uma presença encarnada diante da página em branco.
A construção de ‘Grande Sertão: Veredas’ também foi marcada por experiências reais. Em 1952, Rosa participou de uma expedição de nove dias pelo sertão mineiro, registrando observações em cadernetas. Mônica Meyer, autora de ‘Ser-Tão Natureza’, indica que passagens do romance foram diretamente inspiradas nessa viagem, como o local onde Riobaldo conhece Otacília.
Além de sua obra literária, Guimarães Rosa teve uma carreira diplomática notável. Serviu em Hamburgo entre 1938 e 1942, onde conheceu Aracy de Carvalho. Juntos, auxiliaram judeus perseguidos pelo nazismo a fugir para o Brasil. Relatos indicam que Rosa expressou mal-estar com a discriminação aos judeus e chegou a desenhar uma caricatura de Hitler enforcado. Décadas após sua morte, seu legado perdura, com o Museu Casa Guimarães Rosa recebendo cerca de 25 mil visitantes anualmente e a Oficina de Leitura João Guimarães Rosa, da USP, promovendo encontros semanais dedicados à sua obra.
Fonte: Aventuras Na história


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