Uma equipe de cientistas da Fundação Carlos Simon, em Valência, Espanha, alcançou um feito inédito: manter um útero humano vivo fora do corpo por um dia. O dispositivo, apelidado de ‘Mãe’, representa um avanço significativo no estudo de doenças uterinas, fertilização in vitro (FIV) e, potencialmente, na gestação humana.
O dispositivo, tecnicamente chamado PUPER (preservação do útero em perfusão), é descrito por Javier González, cientista biomédico que desenvolveu o aparelho, como um ‘corpo humano’ externo. Essencialmente, trata-se de uma caixa de metal sobre rodas, coberta por tubos de plástico flexíveis que simulam veias e artérias, conectando uma série de recipientes transparentes. O útero doado é colocado em um recipiente e conectado ao sistema, que bombeia sangue humano modificado para mantê-lo vivo.
A equipe espera manter os úteros doados vivos por tempo suficiente para observar um ciclo menstrual completo. Isso permitiria estudar doenças do útero, como a endometriose, e aprofundar o conhecimento sobre a implantação embrionária, um ponto crítico no sucesso da FIV.
Carlos Simon, fundador e diretor da fundação, enfatiza que, apesar dos avanços na tecnologia de FIV, a falha na implantação do embrião continua sendo um obstáculo significativo. O estudo detalhado desse processo em um órgão real e vivo pode fornecer informações valiosas para prevenir essas falhas.
A ‘Mãe’ é inspirada em tecnologias de perfusão normotérmica, já utilizadas para preservar órgãos doados para transplante, como fígados, rins e corações. Essas tecnologias visam prolongar o tempo de viabilidade dos órgãos fora do corpo, permitindo uma melhor correspondência entre doador e receptor e a avaliação da qualidade dos órgãos.
O dispositivo da Fundação Carlos Simon funciona da seguinte forma: uma bolsa de sangue é conectada a uma bomba, que atua como o coração. A bomba envia o sangue para um oxigenador, que adiciona oxigênio e remove dióxido de carbono, simulando a função dos pulmões. O sangue é aquecido e passa por sensores que monitoram os níveis de glicose e oxigênio, entre outros fatores. Um ‘rim’ remove os resíduos e, finalmente, o sangue chega ao útero, conectado às suas próprias ‘artérias’ e ‘veias’ de plástico. O órgão é mantido inclinado, como no corpo humano, e em um ambiente úmido para evitar o ressecamento.
Antes de trabalhar com úteros humanos, a equipe realizou testes com úteros de ovelhas por cerca de quatro anos. Os experimentos iniciais foram realizados em um centro de pesquisa animal em Zaragoza, onde os úteros de seis ovelhas foram conectados à máquina e mantidos vivos por um dia, utilizando sangue dos próprios animais. Após esses experimentos, a equipe retornou a Valência e modificou o dispositivo para criar a versão atual, ‘Mãe’.
Embora o trabalho ainda não tenha sido publicado, o potencial da ‘Mãe’ é imenso. A capacidade de manter um útero humano vivo fora do corpo abre novas portas para a pesquisa e o tratamento de doenças uterinas, o aprimoramento da FIV e, quem sabe, um dia possibilitar a gestação completa fora do corpo humano.


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