Streamers como Clavicular Humilham Mulheres e Trabalhadoras do Sexo por Engajamento e ‘Clout’

O streamer Clavicular, conhecido como Braden Peters, tem sido alvo de críticas após incidentes em uma festa em Miami, onde supostamente humilhou mulheres e trabalhadoras do sexo para gerar conteúdo e aumentar seu engajamento. Peters, popular na plataforma Kick e conhecido por práticas de ‘looksmaxxing’ (melhoria extrema da aparência), teria transformado um evento voltado para a indústria adulta em um palco para assédio e desrespeito.

Incidente em Festa para Estrelas Adultas

Durante uma festa realizada em 14 de maio, patrocinada pelo podcast Pillow Talk e frequentada majoritariamente por profissionais do entretenimento adulto, Clavicular foi visto em vídeos insultando convidados. Em uma das ocasiões, ele repreendeu uma mulher que passeava com um homem na coleira, acusando-a de exploração e chamando-a de “nojenta”. Em outro momento, ele abordou uma artista adulta, criticando-a por usar um pseudônimo – uma prática comum para segurança na indústria – e a acusou de “funneling young kids to porn”, chamando-a de “pedófila” e “criatura pornográfica nojenta”. A artista teria saído em lágrimas após o confronto, segundo relatos.

A estrela adulta Willow Ryder, presente no evento, tentou intervir, alertando o anfitrião do podcast, Ryan Pownall, sobre o desconforto causado por Clavicular. No entanto, Pownall teria dispensado as preocupações, afirmando que convidou Clavicular para promover o show, que conta com 1.8 milhão de seguidores no Instagram. Segundo Ryder, Pownall teria dito que ela estava “trazendo uma vibe ruim” e que Clavicular era “a pessoa mais famosa na sala”. Pownall não respondeu a pedidos de comentário.

Caos e Críticas nas Redes Sociais

A situação na festa escalou, com relatos de uma briga generalizada após o suposto aparecimento de uma arma. Embora ninguém tenha se ferido, o incidente levou Willow Ryder a criticar publicamente Pownall e Clavicular nas redes sociais. Em uma postagem no X (antigo Twitter), ela declarou: “Não me importo com o quão famoso um convidado é – permitir que mulheres sejam desrespeitadas, gritadas e colocadas em um ambiente inseguro por clout é patético. Façam melhor.” A publicação obteve mais de 817.000 visualizações, incentivando outras trabalhadoras do sexo e modelos do OnlyFans a questionarem Pownall sobre a segurança do evento.

Em resposta à repercussão, Ryan Pownall emitiu um pedido de desculpas no Instagram, lamentando que mulheres da indústria tenham se sentido “desrespeitadas ou indesejadas” devido a “certos convidados”. Ele também cancelou uma aparição planejada em um clube promovido por Clavicular. O episódio reacendeu discussões sobre a prática de streamers e “podcast bros” em objetificar e humilhar mulheres e trabalhadoras do sexo em seus conteúdos, comprometendo a segurança delas.

A ‘Manosfera’ e o Lucro com o Ódio

A controvérsia também expôs a hipocrisia de figuras como Clavicular, que supostamente gerencia uma agência OnlyFans e apresenta modelos em suas transmissões, lucrando com o trabalho sexual enquanto o critica publicamente. Fontes próximas a Clavicular confirmam que ele explorou a ideia de uma agência OnlyFans, mas hesitou em promovê-la abertamente devido à aversão de seu público a trabalhadoras do sexo. Clavicular não respondeu a pedidos de comentário.

A misoginia e o ódio contra trabalhadoras do sexo são problemas recorrentes na internet, intensificados pela ascensão da “manosfera” – termo que descreve streamers e criadores de conteúdo que frequentemente denigrem mulheres. Plataformas como OnlyFans, onde criadoras precisam manter uma persona pública, tornam-se alvos frequentes de homens que disseminam ódio. A performer adulta Ophelia Fae, que viralizou com um vídeo criticando Pownall e Clavicular, observa que é difícil para trabalhadoras do sexo online não interagirem com esse ambiente, muitas vezes de forma acidental, através de influenciadores que reagem a seus conteúdos com comentários odiosos.

Muitos performers adultos participam voluntariamente de podcasts populares como Fresh and Fit e Whatever, que possuem milhões de inscritos e frequentemente geram clipes virais de homens criticando criadoras de conteúdo adulto por lucrarem com o trabalho sexual. Fae descreve o gênero como “rage bait”, onde o objetivo é gerar polêmica e obter visualizações e engajamento.

Mesmo podcasts supostamente amigáveis à indústria, como Pillow Talk e Plug Talk (este último apresentado por criadores do OnlyFans), podem cair em sensacionalismo para fins de conteúdo. O blogueiro da indústria adulta Austin King, que cobriu a história de Pownall e Clavicular, aponta que “agentes e estúdios antigos odeiam Ryan” por fazer “as garotas parecerem ruins na câmera”.

A Busca por Visibilidade e o Preço a Pagar

A economia da indústria adulta online, com a migração para modelos de assinatura individual, pressiona as performers a se autopromoverem. Em um mercado saturado como o do OnlyFans, participar de “rage bait” é visto como uma estratégia eficaz para ganhar visibilidade. Willow Ryder relatou ter visto um aumento em seus seguidores no Instagram e em seus ganhos no OnlyFans após participar de um stream com o influencer BenDaDonnn, onde foi submetida a perguntas invasivas e piadas de mau gosto sobre sua vida sexual e anatomia.

Ryder afirma que tenta “fazer as coisas estrategicamente”, reconhecendo que muitos streamers estão conectados a “pessoas famosas, o que significa que têm muitos olhos” voltados para eles. Clavicular, apesar de ter uma média de pouco mais de 7.500 espectadores por transmissão, alcançou fama viral em parte pela indústria de “clipping”, onde clipes curtos de suas transmissões são editados para viralizar em plataformas como X, Instagram e TikTok. Esses clipes podem atingir milhões de visualizações, tornando a aparição em um deles extremamente atraente para quem busca influência online, independentemente do tratamento recebido.

Clavicular chegou a criar um aplicativo, Clav’s List, para mulheres interessadas em aparecer em seu stream na Kick, que supostamente possui uma lista de espera de 2.000 pessoas. Ophelia Fae conclui que criticar um único influenciador por dar plataforma a outro para assediar mulheres não resolve o problema central: a realidade de que esse tipo de conteúdo gera engajamento. “Sempre haverá outro Clav”, afirma Fae, ressaltando que o incidente não é isolado.

Fonte: Wired

Wendell Oliveira é editor da Globosfera e escreve sobre tecnologia, ciência, saúde, tendências digitais e atualidades, com foco em conteúdo informativo, claro e acessível.
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