Em um cenário global marcado pela escassez de recursos, designers brasileiros estão liderando uma revolução silenciosa, transformando o que seria descartado em objetos de desejo e valor. Guiados por uma crescente consciência ambiental, esses profissionais e estúdios reinventam o mercado, utilizando resíduos e materiais comuns como ponto de partida para criações inovadoras que unem estética, funcionalidade e sustentabilidade.
Reaproveitamento Criativo: Da Cerâmica ao Entulho
O Assimply Studio exemplifica essa abordagem com a coleção Dominó. A mesa de jantar, por exemplo, é confeccionada com cerâmicas reaproveitadas encontradas no Rio de Janeiro, enquanto sua base é composta por 72% de resíduos reciclados de demolição. Complementando a linha, o espelho Dominó utiliza alumínio 100% reciclado. Essa coleção demonstra como o descarte pode ganhar nova função, beleza e permanência, integrando design, pesquisa material e responsabilidade ambiental.
Materiais Recuperados e Hibridismo Funcional
A luminária Pilar, assinada por Danilo Costillas da Casa Costillas, funde iluminação e mobiliário de apoio. A peça explora a verticalidade e o contraste de madeiras brasileiras recuperadas. Sua haste esguia sustenta uma cúpula em tecido que difunde a luz suavemente, criando uma atmosfera acolhedora. O caráter híbrido a torna ideal para diversos ambientes, onde arte e funcionalidade se encontram.
Na coleção Sobrepor, Domingos Tótora e Gabriel De La Cruz exploram as fronteiras entre arte e design. Apresentada na 22ª edição da SP-Arte, a série utiliza papelão reaproveitado, recolhido em Maria da Fé, Minas Gerais. O material é moldado à mão e seco ao sol, preservando suas imperfeições como marcas do tempo. O tingimento, feito com terras de diferentes localidades da região, confere tonalidades únicas que reafirmam a originalidade de cada peça, que varia de bancos a luminárias.
Legado e Inovação na Transformação de Resíduos
Aos 90 anos, Percival Lafer demonstra a atualidade de seu pensamento com o aparador PLE-90 para a Etel. Criado a partir do reaproveitamento de fragmentos de madeira oriundos da produção da Etel, o móvel traduz uma abordagem sensível e consciente, onde cada elemento carrega história e propósito. A peça dialoga diretamente com as urgências contemporâneas, sintetizando o olhar de Lafer sobre um design essencial, duradouro e conectado à matéria.
O Noemi Saga Atelier, com a coleção Reengrenagem, investiga o tempo como matéria de projeto. A série resgata componentes industriais como engrenagens e fresas, reconfigurando-os em mesas de apoio. As superfícies, marcadas por oxidação e desgaste, são ativadas como linguagem, convertendo resíduo em memória material. Bases industriais sustentam hastes em latão ou aço reaproveitado, enquanto tampos em madeira introduzem um contraponto orgânico.
A Suite propõe uma nova abordagem ao design sustentável com a coleção Inverso. Utilizando plástico reciclado triturado combinado com fragmentos de pedra natural descartados, a linha apresenta peças de alto padrão com forte apelo estético. Desenvolvida após meses de experimentação com pigmentos naturais, a coleção reúne 15 itens únicos, incluindo móveis e luminárias, que buscam romper a ideia de que sustentabilidade e sofisticação são opostas.
O escritório Superlimão, em parceria com a Vaique, apresentou a coleção Madre, explorando o uso de plástico reciclado translúcido. A proposta rompe com a estética tradicional associada ao material reciclado, aplicando-o em diferentes escalas, desde estruturas arquitetônicas até peças inspiradas em técnicas ancestrais como cestaria. O projeto foca em sustentabilidade e circularidade, demonstrando como resíduos podem ser transformados em soluções criativas e funcionais.
O Studio Anna Machado exibiu trabalhos manuais feitos com sobras do próprio estúdio na coleção Vestígios, fruto de uma pesquisa artística de anos. Além disso, apresentou o projeto TON, que explora o plástico como agente de transformação social, e um desdobramento da coleção Desamparo.
A estante Castanhão, do Studio Érico Gondim, faz parte de uma linha de quatro peças orientadas pela regeneração de matérias e narrativas. O projeto desdobra a pesquisa do RegeneraLab, realizada em parceria com a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), que resultou em 15 produtos. A investigação explora o reaproveitamento de resíduos e subprodutos do saneamento como matéria-prima para criações autorais, evidenciando o processo de transformar descartes em design contemporâneo na SP–Arte.
Fonte: Um Só Planeta


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