Em uma descoberta que encerra décadas de especulação científica, pesquisadores da Penn State conseguiram registrar pela primeira vez, em ambiente natural, os tênues brilhos elétricos que surgem nas copas das árvores durante tempestades. O fenômeno, conhecido como descargas corona, aparece como flashes na faixa ultravioleta (UV) nas pontas das folhas e pode desempenhar um papel relevante na limpeza da atmosfera. :contentReference[oaicite:0]{index=0}
A busca por um fenômeno nunca observado diretamente
Em junho de 2024, uma equipe de meteorologistas e cientistas atmosféricos da Penn State iniciou uma expedição pela Costa Leste dos Estados Unidos com o objetivo de observar esse fenômeno em condições reais. Utilizando uma minivan adaptada com um sistema telescópico personalizado, os pesquisadores acompanharam tempestades de verão na Flórida em busca das descargas corona, teorizadas há mais de 70 anos, mas até então sem confirmação direta no ambiente natural. :contentReference[oaicite:1]{index=1}
Observação em campo na Carolina do Norte
A equipe, formada por William Brune, Patrick McFarland, Jena Jenkins e David Miller, enfrentou dificuldades iniciais devido à curta duração das tempestades na Flórida. No entanto, durante o retorno à Pensilvânia, identificaram condições ideais próximas à Universidade da Carolina do Norte em Pembroke.
No local, os pesquisadores instalaram seus equipamentos em um estacionamento e direcionaram os instrumentos para os galhos superiores de uma árvore sweetgum, a cerca de 30 metros de distância. Durante quase duas horas de tempestade intensa, com chuva forte e raios frequentes, conseguiram registrar as descargas corona. Posteriormente, o fenômeno também foi observado em um pinheiro loblolly. Essas observações foram publicadas na revista Geophysical Research Letters e representam a primeira confirmação em ambiente natural. :contentReference[oaicite:2]{index=2}
Como as descargas corona podem limpar o ar
As descargas corona ocorrem devido a desequilíbrios elétricos intensos durante tempestades. Nuvens carregadas negativamente atraem cargas positivas do solo, que se deslocam pelas árvores e se concentram nas extremidades das folhas, onde o campo elétrico se intensifica.
Esse processo gera um brilho sutil, visível em luz visível e ultravioleta. A radiação UV produzida é capaz de quebrar moléculas de vapor d’água, formando radicais hidroxila (OH), que são fundamentais para a química atmosférica.
A hidroxila atua como um poderoso agente oxidante, reagindo com poluentes e gases como o metano, transformando-os em compostos mais facilmente removidos da atmosfera. Estudos anteriores já sugeriam que essas descargas poderiam ser uma fonte importante desses agentes dentro das copas das florestas. :contentReference[oaicite:3]{index=3}
Tecnologia utilizada e quantidade de eventos registrados
Para viabilizar as observações, os cientistas desenvolveram o Corona Observing Telescope System (COTS), um sistema baseado em um telescópio Newtoniano equipado com câmera sensível à radiação UV, sensores de eletricidade atmosférica e tecnologia de geolocalização.
O equipamento foi calibrado para bloquear a radiação ultravioleta solar, garantindo que apenas sinais provenientes de descargas corona, raios ou fogo fossem detectados. Durante os testes na Carolina do Norte, foram registrados 859 eventos corona na árvore sweetgum e 93 eventos no pinheiro loblolly, com duração variando de frações de segundo a vários segundos.
Além disso, o fenômeno foi observado em outras tempestades e em diferentes espécies de árvores, indicando que as descargas corona são mais comuns do que se imaginava anteriormente. :contentReference[oaicite:4]{index=4}
Questões em aberto e próximos passos
Apesar da confirmação científica, ainda existem dúvidas importantes. Os pesquisadores buscam entender se as descargas corona causam danos às árvores ou se podem trazer algum benefício, além de investigar se as plantas desenvolveram mecanismos de adaptação a esse fenômeno.
Para aprofundar o estudo, a equipe iniciou colaborações com ecologistas e biólogos, com o objetivo de analisar o impacto dessas descargas na saúde das florestas e na dinâmica atmosférica. A pesquisa conta com apoio da U.S. National Science Foundation e representa um passo importante para compreender as interações entre vegetação e atmosfera. :contentReference[oaicite:5]{index=5}


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