As tartarugas marinhas, com suas longas vidas e extensas migrações, guardam em seus corpos a história dos oceanos que percorrem. Cientistas têm buscado decifrar os segredos inscritos em seus cascos, utilizando técnicas avançadas para analisar a composição química das escamas. Essas estruturas, feitas de queratina – o mesmo material das unhas e cabelos humanos –, registram informações valiosas sobre a dieta e o ambiente em que as tartarugas viveram.
Um estudo recente, publicado na revista Marine Biology, revelou como a análise das escamas pode fornecer dados sobre o estresse ambiental nos oceanos. A pesquisadora Bethan Linscott, da Universidade da Flórida, liderou a equipe que utilizou técnicas de medição de radiocarbono, emprestadas da arqueologia, para examinar os escudos das tartarugas. “É quase como se fosse uma perícia forense de tartarugas marinhas. Nós conseguimos usar impressões digitais químicas preservadas em escamas para detectar mudanças ecológicas”, explicou Linscott.
As escamas crescem em camadas, cada uma refletindo as condições ambientais do momento em que foram formadas. Ao analisar essas camadas, os cientistas conseguem criar uma espécie de diário da vida da tartaruga, rastreando mudanças na dieta e no ambiente ao longo do tempo. No estudo, os pesquisadores coletaram amostras de escamas de 24 tartarugas, tanto da espécie comum (Caretta caretta) quanto da verde (Chelonia mydas), que haviam morrido na costa da Flórida.
As amostras foram cortadas em camadas finíssimas, com apenas 50 micrômetros de espessura, e datadas com base nos níveis de radiocarbono. A técnica se baseia no aumento súbito dos níveis de radiocarbono na atmosfera e na água, resultado dos testes nucleares realizados durante a Guerra Fria, na década de 1950. Esse pico serve como um ponto de referência para determinar a idade das camadas das escamas.
Com essa linha do tempo estabelecida, os pesquisadores puderam comparar as amostras das diferentes tartarugas e identificar padrões de crescimento. Um dos eventos registrados nas escamas foi a maré vermelha que afetou as águas da Flórida entre 2017 e 2019. A proliferação de microalgas tóxicas durante esse período causou a morte de diversos animais marinhos e a diminuição das ervas marinhas, impactando o crescimento da queratina nos cascos das tartarugas. As neurotoxinas liberadas pelas algas e a escassez de alimento prejudicaram o desenvolvimento das placas, deixando uma marca registrada nas escamas.
Ao entender como o ambiente afeta o desenvolvimento dos cascos, os cientistas podem desenvolver estratégias mais eficazes para proteger essas espécies. A análise das escamas se torna, assim, uma ferramenta valiosa para monitorar a saúde dos oceanos e os impactos das mudanças ambientais nas populações de tartarugas marinhas. Essa abordagem inovadora oferece uma nova perspectiva sobre a vida desses animais e os desafios que enfrentam em um mundo em constante transformação, fortalecendo os esforços de conservação.










Deixe uma resposta