No imaginário popular, persiste a ideia de que o café de alta qualidade produzido no Brasil é quase que exclusivamente destinado à exportação, restando aos consumidores brasileiros um produto de qualidade inferior. No entanto, essa percepção, embora enraizada em um passado distante, não corresponde à realidade do mercado atual. A história da produção de café no Brasil passou por transformações significativas, especialmente a partir da década de 1990, que impactaram diretamente na qualidade do café disponível no mercado interno.
Essa crença tem suas raízes nos anos 80, período em que o governo exercia um controle limitado sobre a qualidade do café, abrindo margem para práticas fraudulentas, como a mistura de cevada e milho aos grãos, conforme relatado em um artigo do Inmetro de 1998. Além disso, o governo fixava preços para controlar a inflação, o que incentivava os produtores a direcionarem os melhores grãos para o mercado externo, onde os preços eram mais atrativos. Essa dinâmica contribuiu para a consolidação da imagem de que o café brasileiro consumido internamente era de qualidade inferior.
A virada de chave ocorreu em 1989, quando a responsabilidade pela fiscalização do mercado foi transferida para a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). Consciente da queda no consumo de café no país entre os anos 60 e 80, motivada pela baixa qualidade do produto, a Abic implementou medidas rigorosas para garantir a pureza dos grãos. A criação do Selo de Pureza da Abic, amplamente divulgado, inclusive em novelas de grande audiência como Tieta, em 1990, foi um marco nesse processo de valorização da qualidade.
Em 2022, o Ministério da Agricultura estabeleceu um padrão de qualidade ainda mais exigente para o café torrado, proibindo a presença de mais de 1% de impurezas e matérias estranhas na composição dos pacotes. Essa medida, que entrou em vigor em 2023, fortaleceu a fiscalização e combateu as fraudes, como a recente apreensão de marcas de “café fake”.
A partir dos anos 90, com o fim da intervenção estatal nos preços e o aumento da fiscalização, os produtores brasileiros começaram a investir na produção de grãos de maior qualidade, visando o mercado interno. Um exemplo desse movimento é a criação da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), em 1991, que se dedica à produção de cafés com grãos 100% maduros e sem defeitos. Embora uma parcela significativa desses cafés especiais ainda seja destinada à exportação, o consumo interno tem crescido.
Dados da BSCA revelam que, em 2015, apenas 1% do café especial produzido no Brasil era consumido internamente. Atualmente, essa porcentagem saltou para 15%, demonstrando um aumento significativo no interesse dos consumidores brasileiros por cafés de alta qualidade. A mudança de foco na produção de café no Brasil, impulsionada pela fiscalização, pelo fim da intervenção estatal e pela crescente demanda interna por produtos de qualidade, contribuiu para quebrar o paradigma de que o bom café brasileiro é destinado apenas à exportação. O consumidor brasileiro tem hoje acesso a uma variedade cada vez maior de cafés de alta qualidade, produzidos com rigor e cuidado em todas as etapas da cadeia produtiva.
O antigo Instituto Brasileiro do Café (IBC), que existiu de 1952 a 1989, focava-se principalmente no controle de preços e volume, sem dar a devida atenção à qualidade. Essa postura, somada a fatores como secas e tabelamento de preços, contribuiu para a deterioração da qualidade do café e para a disseminação da percepção negativa entre os consumidores. A formação de estoques de café, muitas vezes com grãos armazenados por longos períodos, também impactava negativamente na qualidade do produto disponível no mercado interno.


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