O Ministério da Cultura anunciou o início do Ano Cultural Brasil-China 2026, um programa abrangente de intercâmbio cultural que abrangerá artes cênicas, música, cinema e outras formas de expressão artística. Esta iniciativa surge em um momento estratégico, com a opinião pública brasileira demonstrando uma inclinação mais favorável à China em comparação com os Estados Unidos, um cenário inédito em décadas.
A crescente influência cultural da China no Brasil já é evidente. O país abriga 14 Institutos Confúcio, um número superior ao de qualquer outra nação sul-americana. Ao contrário da resistência observada nos Estados Unidos, as universidades brasileiras acolheram esses institutos sem grandes obstáculos. No mundo digital, os C-Dramas, impulsionados pelo sucesso dos doramas coreanos, conquistaram um público fiel no Brasil. Vídeos curtos nas redes sociais, como TikTok e Kwai, exibindo a estética urbana cyberpunk das cidades chinesas, frequentemente viralizam.
Uma pesquisa da Quaest revelou que 49% dos brasileiros têm uma visão favorável da China, superando os 44% que expressam o mesmo sentimento em relação aos Estados Unidos. Além disso, com o fim da exigência de vistos, o interesse em viajar para a China aumentou mais de 200% nas buscas da plataforma Booking.
No entanto, é crucial reconhecer as limitações inerentes a essas iniciativas. Observadores frequentemente mencionam um “problema epistêmico”, onde o intercâmbio tende a ser um monólogo em vez de um diálogo. O Brasil recebe bolsas de estudo e exibe mostras culturais chinesas, enquanto a China raramente busca entender a perspectiva brasileira.
Paulo Menechelli, especialista da Observa China, tem documentado esse fenômeno, mostrando que, embora a estratégia chinesa não seja mera propaganda, ela frequentemente se depara com a disparidade entre a auto percepção chinesa e a forma como o país é visto na América Latina. A maioria dos brasileiros ainda associa a China a noções de autocracia e mercantilismo. Pequim enfrenta dificuldades em modificar essa imagem, em parte devido à incerteza sobre qual aspecto de sua cultura promover, resultando em uma narrativa excessivamente polida e sem nuances.
Um país que não tolera a autocrítica dificilmente produz uma cultura que ressoe de forma autêntica, e o público percebe a diferença entre uma obra viva e um produto institucional bem elaborado. Para que o Ano Cultural Brasil-China 2026 seja verdadeiramente proveitoso, é essencial ir além de meras exibições e turnês, e fomentar uma troca genuína entre artistas, ampliar as traduções literárias, produzir projetos culturais colaborativos e explorar as semelhanças e diferenças entre as duas culturas. O objetivo é que estudantes chineses leiam Machado de Assis, enquanto brasileiros debatem Lu Xun em sala de aula. Que adolescentes brasileiros cantem músicas do WayV com a mesma paixão que cantam BTS, e que os chineses apreciem a MPB, a bossa nova, o funk e o rap brasileiros.
O desejo é ver mais filmes de José Padilha, Fernando Meirelles, Walter Salles e Kleber Mendonça Filho nos cinemas chineses, e Wong Kar-Wai, Zhang Yimou e Jia Zhangke nas telas brasileiras. Se o Ano Cultural 2026 se restringir ao roteiro tradicional de exposições, confirmará a impressão de que o Brasil desempenha apenas o papel de espectador, e não de parceiro. A China também se beneficiará ao ouvir, e o reconhecimento disso pode transformar o evento em algo mais do que um programa com curadoria exclusiva de Pequim.










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